20 outubro 2006

O aborto

Um excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, onde uma mulher grávida, raptada por piratas, feita escrava, julgando-se abandonada pelo marido, se encontra dividida entre a possibilidade de voltar a casar ou abortar o filho do casamento desfeito:

«Pois bem, agora passámos a ser três, marido, mulher e filho. Vamos decidir sobre os nossos interesses em comum. Para começar, vou eu dar a minha opinião. É como mulher de Quéreas, e só dele, que quero acabar os meus dias. Porque mais importante para mim do que pais, pátria ou o meu filho, é não conhecer outro homem. E tu, meu filho, o que preferes, no que te toca a ti? Um veneno que te mate antes de teu pai. Ou melhor, ele até já falou, quando me apareceu em sonhos: "Confio-te o nosso filho". Sê minha testemunha, Quéreas, és tu que me empurras para um casamento com Dionísio.»

Excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, do século I d.C.
Tradução de Maria de Fátima Sousa e Silva (1996) Lisboa, Ed. Cosmos

3 comentários:

Bom Garfo disse...

Este Dionísio não pode ser "O Dionísio", porque entre os gregos era Baco. E daí, sendo do século I ac,e devido à ocupação romana da península helénica, Dionísio = Baco. É importante definir isto para conhecer a lógica (ou a sua ausência) que pode estar por detrás da mulher que aborta. Entre entregar um filho a Baco (ambiente de piratas e malfeitores) e matá-lo com um veneno, ela opta pelo segundo. Foi esta a razão de Afrodísias, não o csamento desfeito em si.

Xantipa disse...

Olá, Bom Garfo!
Obrigada pelo interesse no blogue.
Este Dionísio não era Baco ou Dioniso (Diónisos), o conhecido deus do vinho (ambas as formas são gregas), mas sim um mortal, súbdito do Rei da Pérsia (pois estes romances situavam-se num tempo considerado remoto para os seus autores). A dúvida da personagem é mesmo a que refiro no passo citado: ou tem o filho e casa-se com Dionísio, de quem é escrava (fingindo que o bebé é dele...), ou aborta, para que a criança não nasça escrava. Não lhe querendo tirar o prazer da leitura, posso adiantar que escolhe a primeira opção...
:)
Volte sempre!

Bom Garfo disse...

Escolho a primeira opção por duas razões: uma pessoal, outra baseada em factos.
Em conversa com uma amiga médica no hospital de Coimbra, disse-me:"Orlando, não fazes ideia da quantidade de casos de filhos ilegítimos que detectamos por causa dos exames de ADN; claro que essa informação mantém-se sigilosa".

Portanto, a maioria das mulheres tem optado, ao longo de milénios, pela primeira opção. Depois de um período de hesitação, Afrodísias terá optado pelo filho.