08 outubro 2006

Para as mulheres com mais de sete lustros...

Mas sempre que quiseres chegar a uma Vénus já madura,
ainda que pouco tempo insistas, hás-de alcançar um justo prémio.
Arte de Amar, II,701-702

E correm para aí umas anedotas sobre o facto de os homens não se importarem com o nosso prazer!

Pois...
Alguns não...
Mas há 2000 anos, escrevia-se assim:

Elas sentem o prazer sem artifício;
para dar gozo, devem senti-lo igualmente a mulher e o homem.
Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros
(eis porque me apraz menos o amor com rapazes);
odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se
e que, na sua secura, só pensa na sua lã;
prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo;
um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo.
A mim, apraz-me ouvir gemidos que façam sentir o gozo dela,
e que me suplique que me demore, que me aguente;
quero ver os olhos rendidos da mulher, já fora de si,
e que ali fique desfalecida e largo tempo não queira que lhe toque.
Tais bens não os concedeu a natureza nos alvores da juventude;
é logo depois de sete lustros que costumam aparecer.
Quem tem pressa beba vinho novo; para mim, que faça escorrer um velho
vinho a ânfora arrecadada desde o tempo dos antigos cônsules.
Arte de Amar, II, 681-696

Belíssima tradução de Carlos Ascenso André, para a Livros Cotovia, em 2006.



(a capa original é rosa-choque e não este roxo senhor-dos-passos!!)

7 comentários:

carneiro disse...

Desconfio que aquele referência aos "rapazes" vá inibir muitas opiniões.

Eu discordo com: aos sete elas ainda pensam muito nelas; a partir dos oito, isso sim, alia-se aquele gratificante revirar de olho com a preocupação com o nosso equivalente reviralho orbital (se é que a expressão não é forte em demasia).

Outra coisa: esta de "só pensa na sua lã" não foi escolhida para me provocar ? Ou foi ?

nikonman disse...

Esta edição (portuguesa) respeita os 3 livros (2 dedicados ao homem e 1 à mulher)?
Li a versão alemã do Ars Amatoria (Liebeskunst)e fiquei com curiosidade em saber como chegaria a Portugal e em português do sec. 21.
Obrigado pela informação.

Xantipa disse...

Sim, sim, Nikonman. A edição portuguesa é constituída pelos três livros, «os dois primeiros são dirigidos aos homens, o terceiro às mulheres», como diz o tradutor na introdução.
Não imagino como seja Ovídio em alemão, mas esta versão portuguesa é muito boa!

Thoth disse...

Assim e não só; também Hecatão escreveu sobre o tema, citado por Séneca: "Vou indicar-te uma receita para o amor que dispensa o recurso a filtros, ervas ou fórmulas de feitiçaria: se queres ser amado, ama!"
Nada tão simples, os livros ficam para depois...

carneiro disse...

Pronto, agora que já temos a bibliografia, aliás, erudita, visitada e revisitada, alguém consegue tomar partido sobre a questão essencial, ou seja, sobre a idade mais adequada à mulher para que a função seja reciprocamente satisfatória ?

O que interessa à vida, verdadeiramente à vida, é praticar, em concreto, o acto. Saborear, desejar mais, repetir daqui a pouco. Viver o resto do dia na ânsia do amanhã. E, depois, concluir teoreticamente, se a conversa calhar.

Não é estar a elaborar o rol dos autores mais ou menos eruditos que versaram literariamente a matéria.

Cá por mim, a única vez que me dediquei a esse estudo na língua alemã foi nos finais dos anos 70 com uma cachopa de Munchengladbach que, pela fresca idade, não se enquadrava no estudo etário de Ovídio.

Mas, enfim, viva a cultura portuguesa: Raramente ela própria goza, basta-se em estabelecer teorias gerais sobre o gozo dos outros.

Apetecia-me dar um nome a esta corrente, mas por respeito à dona do blog, omito.

Terpsichore disse...

Thot
""se queres ser amado, ama!"""

Só podia ser o grande Seneca, mesmo. Gosto SEMPRE tanto dele.!!

Simples como água, mas quão poucos o conseguem fazer.

Por outras palavras.... sim... mas quem é capaz de amar? Quem sabe amar? Porque o desejo não é ainda o amor. Os homens muitas vezes só tarde aprendem o amor.
Há tantas raparigas tão AMÁVEIS, tão belas... é fácil confundir o desejo com o amor...

Enfim, não ligues a mim. Tens a Diotima. lollol - eu vou mudar o meu nome para o nome dela... :) é muito mais adequado para me ajudar a lembrar de quem e do quê sou aprendiz.... :)

Mas sobre o amor nunca li nada tão bonito como o que ela, Diotima, ensina. :)

Terpsichore disse...

Espero que não fiquem revoltados contra o que eu digo - mas é verdade.

Eu própria já passei os momentos de descobrir que homens que eu pensara que tinham amado - e eles também pensam muito que aquilo é amor - mas eu vim a descobrir passados muitos anos que era apenas outra coisa...

E na minha qualidade de terapeuta...

sei de vários homens que depois de uma vida normal com muitos "amores", casamento, divórcio, viver juntos, etc. me confessaram só ter sabido o que era o amor, por exemplo, ao estar no parto de um filho seu, aos 52 anos de idade, ao pegar no filho a seguir ao parto. Aí ele percebeu que não soubera o que era o amor até aí.

Bem. Penso que isto conta para muitas pessoas.

(Por acaso aquilo é a descrição da razão porque viver o parto de uma boa maneira, pode ser tão positivo)

Mas também conheci vários casos de homens que amaram e amam suas mulheres, sim. :) Por de certo.

Ai que blabla que aqui vai...(meu)