31 outubro 2006

Alexandre, Aníbal, Minos e Cipião (take one)

(Aníbal Barca: 247-183 a.C.)

Alexandre: eu devo ficar à tua frente, ó Líbio, porque sou melhor.
Aníbal: De forma nenhuma, eu é que devo ser preferido.
Alexandre: Portanto, Minos que julgue.
Minos: Quem são vocês?
Alexandre: Este é Aníbal o Cartaginês, e eu sou Alexandre, o filho de Filipe.
Minos: Por Zeus, sois ambos célebres. Mas qual é motivo da vossa disputa?
Alexandre: A respeito da precedência, porque ele afirma ser melhor general do que eu, ao passo que eu, como toda gente sabe, sou superior não só a ele, mas de modo geral a todos os anteriores em mim, na arte militar.
Minos: Ora fale cada um, por sua vez. E tu, ó Líbio, fala em primeiro lugar.
Aníbal: Uma coisa ganhei, ó Minos, a saber, aqui e aprendi também a língua grega, por forma tal que nem mesmo nela este me levará vantagem. E eu afirmo que são principalmente dignos de louvor aqueles que nada sendo, de começo, avançaram por si próprios para uma grande situação não só revestindo-se de força mas também mostrando-se dignos do poder. Eu, ao menos, com pouca gente, lancei-me à conquista da Ibéria, a princípio como lugar-tenente de meu irmão, fui considerado digno das maiores honras e julgado o melhor. (…) E fiz isto tudo, sem me chamar filho de Amon nem me fingir deus, nem descrevendo os sonhos da minha mãe; mas admitindo que era um homem, não só fiz frente aos generais mais inteligentes mas também com um batia com os soldados mais guerreiros. (…) Ao passo que Alexandre, tendo recebido o poder paterno, o aumentou e o estendeu largamente, aproveitando o impulso vigoroso da fortuna. Ora, quando vencera aquela peste do Dario (…), considerando-se digno de ser adorado, passou-se para os hábitos dos Medos e matou nos banquetes os amigos e fê-los prender para os matar.
Quanto a mim, por um lado, governei numa altura em que na minha pátria as leis eram iguais para todos, por outro, quando ela me mandou chamar (…), rapidamente obedeci e apresentei-me como um cidadão comum e, quando fui julgado, sofri resignadamente a condenação. E procedi assim, apesar de ser um bárbaro, sem os benefícios da cultura grega, sem recitar Homero como ele, sem ter sido educado pelo sofista do Aristóteles, só com os recursos da minha natureza que é boa.
É por tudo isto que eu digo que sou melhor do que Alexandre. E se ele é mais belo porque cinge a cabeça de um diadema, talvez também isso seja nobre para os Macedónios, todavia não é por esse motivo que ele parecerá melhor do que um homem da raça e vocação do general que fez mais uso da sua inteligência que da sua sorte.

Diálogos dos Mortos

O semita Licinos de Samósata (actual Turquia), depois de romanizar o seu nome para Lucianus, é conhecido entre nós como Luciano.
Viveu em Atenas, no Egipto, e viajou pelo mundo conhecido como conferencista itinerante. Chegaram até nós cerca de oitenta obras, em grego, que revelam o seu carácter jocoso e satírico, e títulos como Lúcio ou o Burro, a História Verdadeira ou este Diálogo dos Mortos tiveram influência no Humanismo e mesmo nas literturas modernas.
Na época de Luciano (o séc. II d.C.), o tema de Alexandre estava na moda, e o olhar de alguém oriundo de uma outra cultura que não a grega nem dela herdeira torna-se sempre interessante. Escolhi, assim, três diálogos que remetem para este jovem (morreu com 33 anos...)
A edição usada é das «velhinhas» do INIC/CECHUC, Coimbra, 1989 (comercializadas agora pela Gulbenkian), com introdução, notas e versão do grego de Américo da Costa Ramalho.

30 outubro 2006

Non latine loquor...

... sed saepe lego.

Isto foi só uma gracinha, a propósito da notícia da Visão desta última quinta-feira (p.69):

Fazendo gala da sua tradição do estudo do Latim e num sinal de respeito por minorias eruditas, o sítio da Presidência Finlandesa da União Europeia insere, regularmente, um Conspectus rerum latinus, que é como quem diz, em tradução livre, um «Olhar em latim sobre os assuntos a tratar». Nesse conspectus, lá estão indicações sobre a actividade de Matti Vanhanen, «primus minister Finnorum» e de José Manuel Barroso, «praeses Commissionis Europaeae».
(Nota: na Visão, a última palavra está mal escrita. No site está « Europaeae» - assim mesmo, «aeae» - genitivo de «Europaea», e a revista retira-lhe a última sílaba. Corrigi...)

Também na Finlândia há uma rádio que emite em Latim (Nuntii Latini) e o seu site tem chats (colloquia latina) onde se pode conversar sobre temas diversos com pessoas com nicks como Mucius Scaeuola, Furius Camillus, Beatus Bernardus ou Regiomontanus...

Não falo Latim. Ensino (ensinava...) e estudo esta língua há muitos anos de um modo passivo. Mas elogio a Finlândia, que não sendo herdeira da língua latina (nem indo-europeia!) entende a sua importância e gabo aqueles que se dedicam ao Latim com o empenho necessário para verter Fernando Pessoa («Puerulus matris suae») ou Carlos Drummond de Andrade. É o caso de Silva Bélkior, que passou estes dois poetas para a língua do Lácio (ai, como nós gostamos destas coisas!).

Deixo aqui outra gracinha, tirada do Jornal de Poesia
Carlos Drummond de Andrade
(Tradução: Silva Bélkior )

Bis gemina chorea
lohannes ardebat Theresiam quae ardebat Raymundum
qui ardebat Mariam quae ardebat loachim qui ardebat Lilim
quae ardebat neminem.
lohannes ad Status Foederatos fecit iter, Theresia ad claustrum,
Raymundus fatali obiit casu, Maria vitam vixit virgo,
loachim propria se interfecit manu atque Lilim sibi iunxit J. Pinto Fernandes
qui fabellam non ingressus fuerat.
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. PintoFernandes
que não tinha entrado na história.

29 outubro 2006

A Lógica da Batata (3) vai à escola

A professora Ana Cristina Oliveira convidou-me a ir à sua escola com A Lógica da Batata.
A Lógica da Batata é uma pequena palestra pensada para encaixar no programa de Filosofia do 11º ano. Chegando às falácias informais, especificamente às falácias de ambiguidade, em vez de ser o professor a leccionar aquela matéria, faço-o eu, usando apenas exemplos retirados do diálogo de Platão Eutidemo. Aproveito o conhecimento que adquiri ao traduzi-lo e realço os exemplos de equivocação, anfibologia, composição, divisão e falsa dicotomia aí encontrados. E como o Eutidemo é muito divertido, consegue-se adesão da parte dos alunos.
Na Escola Secundária de Pinheiro e Rosa tinha 47 alunos à minha espera. Correu muito bem. Respeitadores… participativos… gostei mesmo muito!
Já tinha estado naquela escola anteriormente, a convite de outra Ana, professora de Filosofia, a Ana Bela Guita. A Ana Guita tem um clube chamado «Trilhos da Arte» e toda a escola está decorada com telas pintadas pelos alunos. O projecto deste ano baseia-se na obra de José de Guimarães. E como não havia dinheiro para telas, pintam em… pedras! Já estão mesmo a começar um jardim de pedra num dos espaços do pátio.

Eu recebi esta («serve-te de pisa-papéis», sugeriu-me a Ana)!
A Ana Cristina tem um clube de teatro. Mestre em Educação artística e actriz, ensaia com os alunos mesmo ao fim de semana. E foi uma «escandaleira» quando se soube que até dava o número do telemóvel aos alunos, para que a pudessem contactar.

Tenho muita sorte em ter destas amigas! E a ESPR em ter estas professoras!

28 outubro 2006

«Rituais do amor e do prazer» (Ovídio)

Eis que um leito acolheu, cúmplice, dois amantes;
diante das portas fechadas da alcova, ó Musa, sustém o passo!
Espontaneamente, sem a tua ajuda, palavras mil hão-de ser ditas,
e não se quedará inerte no leito a mão esquerda;
a hão-de os dedos inventar que fazer naqueles sítios
em que, às escondidas, mergulha as suas setas o Amor.
(…)
Acredita no que te digo: não deve apressar-se o prazer de Vénus,
mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.
Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,
não seja o pudor a impedir-te de o tocar;
verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,
como, tantas vezes, o sol reflecte a luz na superfície da água;
far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro
e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.
Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo; então será pleno prazer,
quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.


(Públio Ovídio Nasão, Arte de Amar, II. 703-708, 717-728. A referência é a mesma desta aqui)

Este Ovídio sabia muito! Homens e mulheres, dêem-lhe ouvidos! E exclamem, como ele prório queria e pedia: «Nasão foi o meu Mestre!»

27 outubro 2006

Estar próxima... A Lógica da Batata (2)

Daqui a pouco vou fazer uma coisa de que gosto muito: ir a uma escola secundária falar da lógica da batata.
Gosto por várias razões:
- para estar próxima da realidade das escolas. Mesmo a assustadora indisciplina não me amedronta. Quando acontece, não é agradável, claro... quando o 1º quarto de hora é para os sossegar... cansa. E acho que os colegas do ensino secundário são uns heróis! E que quando mais baixo é o ciclo de ensino, mais heróis são!
Tenho de confessar que tenho dificuldade em aceitar idas a algumas escolas... Aceito por solidariedade, mas sem vontade nenhuma... Felizmente, o resultado tem sido positivo, mesmo nessas situações. Os miúdos acabam por se sentir cativados e participar nos encontros. Se isso lhes valeu de alguma coisa, valeu certamente a pena para mim!
- porque esse conhecimento adquirido com a ida à escolas ajuda-me, pois daí a um ano ou dois alguns daqueles alunos virão para as minhas mãos (vou sonhando, eu sei...).
- porque me obriga a simplificar as ideias e a linguagem.
- porque aproxima os diversos níveis de ensino. E isso é produtivo para os alunos e para os colegas, que percebem que a Universidade procura estar próxima, colaborando nas actividades.
Há muitos anos que faço isto, tal como outros colegas. No entanto, a própria Universidade do Algarve percebeu a importância destas actividades e montou uma estrutura chamada Equipa UAlg, com oferta de palestras para (quase) todos os níveis de ensino e para (quase) todas as disciplinas, onde me integrei.
Hoje vou, às 10.20, à ES Pinheiro de Rosa (uma das duas escolas do Algarve de entre as 24 que no país vão ter autonomia).

26 outubro 2006

Traduções...

Hoy en día, un cierto hálito de cultura ensimesmada, no dialéctica, aureola el cuadro lingüístico anglosajón, que, basado en el prestigio político de su lengua - y como antaño los griegos, que desde luego no rindieran ese servicio de mediación a una posteridad que tanto les admiró - deprecia lo otro, «lo no ellos». El hecho de que la mayor potencia lingüística del mundo - la antigua Commonwealth (exceptuda Canadá, obligada politicamente al bilingüismo) más Estados Unidos - tenga uno de los menores índices traductográficos del conjunto de naciones cultas alude a su escasa curiosidad cultural y explica, también, más de un comportamiento político con su entorno humano.
(...)
la traducción (...) siempre será la visión de lo otro desde lo propio, desde la propia idiosincrasia y desde el propio idioma. Por eso, la tradución son las machadianas gafas con las que vemos lo otro; es el color que tiñe las realidades a las que lingüísticamente no podemos llegar de una manera directa.

Da Introdução (pp.16-18) de Miguel Ángel Vega à colectânea de que foi editor, em 2004, para a Ed. Cátedra (Linguística), intitulada Textos Clásicos de Teoría da la Traducción.

25 outubro 2006

Desabafo desesperado! Ouvidos, acautelai-vos!

A minha professora de violoncelo quer juntar um quarteto para apresentar na festa de Natal do Conservatório cá da pólis. Eu bem lhe expliquei que a minha idade é outra, que estou ali para aprender a ser uma melhor ouvinte do instrumento, que não tenho interesse em fazer nenhum grau...
Mas ela fez-me ouvidos moucos.
Parece que alguém fará um pizzicato... espero que me calhe a mim...

24 outubro 2006

A Lume

Eu trabalho para uma Luz
Höderlin
Eu sei exactamente onde me tocaria
O deus em que não creio com os seus dedos
Ardentes: na língua
Abrindo-me com força a boca
Queima-me os lábios tocando
Os meus dentes doentes com a sua luz
Electrificando os pedaços de marfim enegrecido
Inundando-me de um silêncio luminoso.

Pedro Vieira, 1967-2005
- A vida ou a obra!
Grita-me o ladrão.
- Leva-me tudo
E faz tu a distinção.


Pedro Vieira, 1967-2005

O que diz Sócrates...

Ó bem amado Pã e quantas divindades habitais este lugar concedei-me a beleza interior.
Que tudo o que é exterior viva em mim em harmonia com o interior.
Que eu considere rico o sábio e que, quanto a ouro, possua quantidade que um homem moderado possa roubar e levar.

Platão, Fedro, 279b-c. Trad. de José Ribeiro Ferreira, Edições 70, 1997.

23 outubro 2006

Eu tenho dois amores...

(...) Afirmavas-me, lembro-me bem,
que não era possível alguém, ao mesmo tempo, amar duas mulheres.
Por tua causa, deixei-me surpreender, por tua causa, fui apanhado desprotegido;
eis que passo pela vergonha de duas mulheres, ao mesmo tempo, amar.
Uma e outra são formosas, esmeram-se ambas na elegância;
nas artes, tenho dúvidas se tem esta, se aquela a primazia;
aquela é mais formosa do que esta, esta é, também, mais formosa que aquela;
ora me agrada mais esta, ora mais me agrada aquela;
balançam, como uma barcaça sacudida por ventos desencontrados
e trazem-me partido ao meio um e outro amor.
(…)
Mas antes isto do que ficaram morto sem amor.
Que ao meus inimigos caia em sorte uma vida austera
(…)
a mim, que me caiba em sorte desfalecer nos movimentos de Vénus,
quando a morte chegar, e possa eu extinguir-me em meio da função;
e haja alguém que proclame, entre lágrimas, nos meus funerais:
“essa foi uma morte de acordo com a tua vida”.


Mais Ovídio! Desta vez os Amores (II, 10.), também em tradução de Carlos Ascenso André para a Cotovia, em 2006.
Os Amores foram a sua primeira colectânea de poesia amorosa, escrita quando o poeta teria cerca de 20 anos. Diz-nos o tradutor na introdução: «Eram já poemas nascidos naquela sociedade frívola e faustosa que Roma começava a ser; e Ovídio havia-se transformado, rapidamente, no poeta dilecto dos salões mundanos, dos festins, da música, das beldades.

Ovídio, 43 a.C - 17 /18 d.C.

22 outubro 2006

Correcção

O post anterior foi corrigido.
Tu, que me perguntaste a minha opinião, deves ter ficado surpreendido.
Claro. Depois de uma história daquelas a conclusão não fazia sentido! Escrevi uma coisa e queria dizer outra!!
Lê de novo, por favor. E desta vez sem erros: sou a favor da despenalização.

A minha opinião??

Queres saber a minha opinião? Não acho que interesse muito, mas não foste o único a perguntar.
Vou contar-te uma história.
Um dia, ouvi um conversa entre a minha mãe e a minha avó que não era suposto ter ouvido.

Quando eu estava presente, nunca falavam dos seus assuntos nem de outras pessoas. Quando, por acaso, estavam a meio de uma conversa e eu entrava, logo as pessoas passavam a ser chamadas de «criaturas» («aquela criatura do outro dia, sabes?») e eu não percebia nada, cumprido assim o objectivo.
Nesse dia ouvi-as falar de uma «criatura» que eu conhecia. Pensavam que eu não estava ali e deram-lhe um nome... Tinhas duas filhas. Pouca instrução (uma pessoa humilde, dizia-se na altura). Não sei que idade teria... nem 30 anos... não me lembro. Para mim era uma mulher «crescida». O marido, que lhe batia com frequência, tê-la-ia ameaçado de que, se tivesse outro filho, a matava. Ela terá sabido que, se pusesse umas ervas «lá dentro» e depois puxasse com agulhas de crochet, o feto sairia...
O resultado imagina-se.
Morreu, com os intestinos perfurados.
Nunca mais me esqueci disto. Fiquei profundamente chocada.

Quando, pouco depois (teria eu os meus 14 ou 15 anos), me lembro de se ter discutido a despenalização do aborto pela primeira vez, esta história pairava na minha cabeça.
Se esta mulher tivesse ido a um centro de saúde, como era jovem, como o filho não era resultado de uma violação, será que poderia argumentar que a sua vida estava em perigo, caso fosse para a frente? Perigo de vida da mãe também seria quando uma mulher era ameaçada pelo marido??
Nessa época eu era católica apostólica, romana, praticante. Mas nunca cedi. Prisão para esta mulher?? Nunca.
Não acredito que alguém escolha o aborto como método contraceptivo.

Se sou contra o aborto? Sou. Como sou contra muitas práticas legalizadas neste país. Não é por ser permitido que as faço.
Se sou contra a penalização do aborto (ou do eufemisno «interrupção voluntária da gravidez»), completamente? Sou. Completamente.

Aqui tens a minha opinião.

(agradeço às «Claras em Castelo» a chamada de atenção para o meu erro!! Tinha ali um prefixo negativo a mais! Sou a favor da despenalização do aborto, como não poderia deixar de ser...)

21 outubro 2006

O aborto (2)

Ao discutirmos actualmente, a despenalização do aborto (confundindo, muitas vezes, a despenalização com a aprovação desta prática como meio contraceptivo), estamos a admitir a diferença entre a moral, as opiniões e a lei por que nos regemos. Estamos também a dar razão aos primeiros que filosofaram e a outros que lhes seguiram que defendiam que as leis mudam e têm origem no «acordo voluntário dos indivíduos, preparados para concessões recíprocas», como diz uma investigadora italiana, Decleva Caizzi.
Por exemplo, Crítias afirmava que os deuses foram inventados pelos homens e Cálicles, no Górgias de Platão, reforça a ideia: «Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura» (483b).
Teria a mulher autonomia para pôr e dispor do seu corpo? A liberdade que as mulheres revelam na literatura (independentemente da sua condição social ser ou não de escravas) com o seu corpo será uma manifestação da vivência da época ou será simplesmente poética? Até que ponto a liberdade de fazer greve aos deveres conjugais era possível, como faz Lisístrata?
Efectivamente, a condição que Calírroe nos apresenta seria mais frequente do que se possa imaginar. Na Grécia antiga, o aborto, a par do infanticídio (geralmente sob a forma de exposição, isto é, abandono à morte), acontecia como forma de controlo de natalidade e, tal como em Roma, não era considerado crime. Dado que até a criança ser aceite pelo pai não tinha existência jurídica, esbatiam-se assim as diferenças entre abortar e expor. Apesar de os médicos não o deverem praticar, não havia uma condenação ética absoluta do aborto. Platão mostra-se favorável a ele como modo de controlo demográfico e por razões económicas, e Aristóteles concorda que se pratique por razões génicas, estabelecendo mesmo uma data a partir da qual é censurável (Política, 1335b19-25. Veja-se a nota 170 à tradução de António Capelo do Amaral e Carlos de Carvalho Gomes, 1998, Lisboa, Vega).
No romance de Cáriton, referido no postal anterior, o aborto é referido com naturalidade como a solução imediata para uma gravidez não desejada (ou melhor, desejada, mas noutras circunstâncias), não querendo com isto dizer que seja visto como uma acção louvável. Calírroe hesita variadas vezes, pois, apesar de estar apenas grávida de dois meses, já sente o amor de mãe a pesar na decisão e não quer seguir «as pisadas de Medeia»...

20 outubro 2006

O aborto

Um excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, onde uma mulher grávida, raptada por piratas, feita escrava, julgando-se abandonada pelo marido, se encontra dividida entre a possibilidade de voltar a casar ou abortar o filho do casamento desfeito:

«Pois bem, agora passámos a ser três, marido, mulher e filho. Vamos decidir sobre os nossos interesses em comum. Para começar, vou eu dar a minha opinião. É como mulher de Quéreas, e só dele, que quero acabar os meus dias. Porque mais importante para mim do que pais, pátria ou o meu filho, é não conhecer outro homem. E tu, meu filho, o que preferes, no que te toca a ti? Um veneno que te mate antes de teu pai. Ou melhor, ele até já falou, quando me apareceu em sonhos: "Confio-te o nosso filho". Sê minha testemunha, Quéreas, és tu que me empurras para um casamento com Dionísio.»

Excerto de Quéreas e Calírroe, romance de Cáriton de Afrodísias, do século I d.C.
Tradução de Maria de Fátima Sousa e Silva (1996) Lisboa, Ed. Cosmos

18 outubro 2006

Filoctetes

Neoptólemo: E não te parece vergonhoso mentir?
Ulisses: Não, se a mentira nos traz a salvação.
Neoptólemo: Com que cara ousa alguém proclamar tal doutrina?
Ulisses: Quando se age para o nosso interesse, não se deve hesitar.

Sófocles, Filoctetes, 1987, JNICT. Em tradução de José Ribeiro Ferreira.


Um destes dias vou ver a versão (recriação poética) que Frederico Lourenço preparou para o Teatro da Cornucópia. Em cena até 26 de Novembro.



17 outubro 2006

O que diz Hesíodo

Nada deixes para amanhã ou depois de amanhã,
pois o homem negligente no trabalho não enche o celeiro,
nem aquele que o adia; a canseira ajuda o teu trabalho,
mas o homem que adia as coisas sempre luta com a ruína.

Trabalhos e Dias, 410-413. Tradução de José Ribeiro Ferreira, para a INCM.

16 outubro 2006

De Coena/ Sobre o jantar

De vez em quando, para variar, ponho-me a tentar traduzir as regras da escola de medicina de Salerno.
Aqui fica uma, pós-prandial:

Ex magna coena stomacho fit maxima pena.
Vt sis nocte leuis, sit tibi coena breuis.


Por um grande jantar, faz o estômago muito penar.
Para que à noite te sintas leve, que o jantar te seja breve.


Regimen Sanitatis Salernitanum, V.

15 outubro 2006

Fora de casa (2)

Vimos agora aqui junto de vós para dizer qualquer coisa em nosso abono. É que não há quem não diga o pior possível do sexo fraco: que somos a ruína completa da humanidade, as culpadas de tudo, das discórdias, das questões, de divergências terríveis, do sofrimento, da guerra.
Ora bem: se somos uma peste, porque é que vocês se casam connosco, se de facto somos mesmo uma peste? Porque é que nos proíbem de sair, de pôr o nariz de fora e em vez disso se empenham em guardar a peste com tanto cuidado?
Mal a pobre mulher sai, e vocês descobrem que ela está fora de portas, ficam completamente doidos; quando deviam mas era dar graças e esfregar as mãos de contentes por saberem que realmente a peste se tinha ido embora e já não a encontrarem lá dentro.
Se passamos a noite em casa de alguém, cansadas de uma festa, não há quem não venha rondar os leitos, à procura dessa peste. Se nos debruçamos à janela, lá andam vocês a tentar ver a peste; e, se, por vergonha, nos metemos para dentro, ainda mais desejosos ficam todos de verem a peste debruçar-se outra vez.
Aristófanes, As Mulheres que Celebram as Tesmofórias. Tradução de Maria de Fátima Sousa e Silva para as Edições 70.

14 outubro 2006

O meu «café»...

Quando era miúda (e até já graúda) gostava muito de ver o Festival da Canção. E durante o resto do ano cantávamos lá por casa as cantigas vencedoras e as outras.
Com o tempo fui perdendo ligação à coisa e hoje não sei nada do que se passa.

O facto de, no fim da infância e princípio da adolescência, ter convivido com imãos mais velhos 4, 7 e 9 anos, fez com que, apesar de não ter ainda nascido quando o Festival começou, conhecesse as letras das canções. O meu irmão C. dizia que eu e a minha irmã nos completávamos, pois eu sabia as letras, mas não acertava uma nota, de tão desafinada que era (e sou...), a minha irmã cantava (e canta...) muito bem, mas nunca sabia as letras!

Há uns anos, esse irmão ofereceu-me um CD com as canções do Festival. Como não bebo café e tenho hipnose da estrada, estas músicas são a minha salvação. Mal me apercebo de que as pálpebras se querem fechar, ponho o CD e começo a cantar em altos berros :«Senhor, a teus pés eu confesso...»
... e termino a viagem sem incidentes.

Fora de casa

A partir de hoje vou estar pelo Bombarral e por Lisboa, mas vou tentar vir aqui actualizar o blogue.
Isto está a torna-se um (bom) hábito...

De quarta a sábado decorre, na Univ. Nova de Lisboa, o VI Congresso da APEC e eu vou andar por lá:

Identidade e Cidadania - da Antiguidade aos Nossos Dias
(a imagem é a do cartaz de divulgação)

13 outubro 2006

Parabéns à minha Mãe

A minha mãe faz hoje 83 anos.
Sete partos... restamos três filhos.
Filha do segundo casamento do meu avô, que se divorciara em 1912...
Filha de uma brasileira (a minha avó Stella) culta, linda!
Neta de farmacêutico, numa família de homens licenciados e mulheres... licenciadas.
Orgulhosa da cultura dos «seus».
A descrição da discrição.

A minha Mãe é uma mulher moderna.
Gosta muito de usar calças compridas.
Nunca lhe furaram as orelhas.

Grande defensora da liberdade individual, sempre me apoiou nas minhas escolhas.
«A vida é tua. Tu saberás. Eu estou aqui...»
Terei beneficiado por ter chegado tarde?
Não sei. Mas sei que ali continua, sempre, sempre, a apoiar-nos.
Sem exigências. Sozinha. Como diz que gosta de estar.
Uma verdadeira Stella Augusta, que melhor nome não lhe poderiam ter dado.

Se um dia for mãe... quero ser como ela!

O que diz Teógnis

Muita gente estúpida tem óptima fortuna,
e o aparente descalabro se lhes transforma em êxito.
Depois há aqueles cujo esforço bem intencionado
tem o pior azar; e a bom termo nunca chegam os seus actos.

(161-164. Tradução de Frederico Lourenço)

12 outubro 2006

Citar poesia grega e latina

Aos meus amigos que se manifestaram contristados e solidários com o que seria o meu penar, imaginando o que devia passar por ter de ler livros enormes, como a Arte de Amar, aqui citada, devo sossegá-los:
Não, 701-702 não são as páginas mas os versos.
A edição da Cotovia até só tem 122 páginas, nas quais se incluem as notas e a introdução!
Tal como a filosofia grega tem uma forma própria de ser citada (variando de autor, sendo diferente entre Platão e Aristóteles), também a poesia antiga tem o seu modo próprio: cita-se, indicando, além do nome do autor e título, os versos. Quando a obra tem mais do que um livro (ou partes), também deve constar essa indicação. O número do verso encontra-se na parte lateral da folha
Assim, Arte de Amar, II, 701-702, significa que se está a citar os versos 701 e 702 do Livro II. Pode-se fazerfazer preceder os números de v. (verso) ou vv. (versos).
A indicação da página da edição portuguesa, (76, para os curiosos) ou de outra qualquer edição, serve para uma conversa informal, mas o passo não será situável nem citável.
A literatura grega tem mais de 2500 anos de tradição de estudo, no mundo inteiro. Estas «coisas» que podem parecer «picuinhices de ratos de biblioteca» são fundamentais para que qualquer estudioso se possa entender com outro e para que qualquer curioso possa encontrar «aquele verso tão bonito...»

11 outubro 2006

10 outubro 2006

Zéfiro? Não... Zéfira!

Zéfiro é o nome do vento oeste, o vento da Primavera...
Homero, na Odisseia (tradução de Frederico Lourenço para Livros Cotovia, em 2003), chama-lhe «pernicioso»...
Em XII, 408 e seguintes, conta como chegou
o Zéfiro guinchante com grande rajada de tempestade.
A força do vento quebrou as cordas do mastro,
ambas: o mastro caiu para trás, e todo o equipamento
caiu no porão; na proa da nau, o mastro atingiu a cabeça
do timoneiro e partiram-se-lhe os ossos do crânio.

Ora, não tendo nada contra o pobre do homem do leme, rachou-lhe a cabeça, imagine-se o que podia fazer despeitado!
Dizem alguns que, por esse sentimento (ou inveja, ciúme, que vai dar ao mesmo na história), foi ele o culpado pela morte de um mancebo por quem estava enamorado.
Conta-se que o rapaz preferia os favores de Apolo e um dia, quando estes dois jogavam ao lançamento do disco, Zéfiro soprou com mais força, fazendo com que o jovem fosse atingido mortalmente na cabeça.
Jacinto era o seu nome e, do sangue que derramou, Apolo fez nascer uma flor assim chamada em sua memória.

(Não sei por que razão este vento não tem uma entrada própria no Dicionário de Mitologia Grega e Romana do Pierre Grimal, na minha edição - 1992, Difel, tradução portuguesa)

E Zéfira é o nome da loba que acabei de adoptar. Vejam a foto dela. Está magrinha...

A Zéfira e outros lobos esperam mais pais adoptivos. Quem estiver interessado, pode contactar o Grupo Lobo, clicando aqui.

09 outubro 2006

O Moinho do Reboliço

Os Soares proporcionaram-me uma bela tarde de Sábado! Obrigada!
À chegada, o senhor Soares marcava a zona em que as velas iriam rodar, para proteger as cabeças que por lá iriam andar ao vento! Eu ainda não sabia que aquelas «bolinhas» que dali se viam eram pequenos cântaros, as «cantarinhas», que serviam para o moleiro perceber que as velas giravam e de que lado soprava o vento.


Tive, em seguida, uma visita guiada ao interior do moinho, onde conheci a equipa que pôs tudo aquilo a andar. Mas quem conta bem é o Reboliço, aqui e nos postais subsequentes.
Tirei uma fotografia ao tecto...


Para terminar, a última foto do dia, já o sol dourava as velas, enquanto as cantarinhas assobiavam, assobiavam...

O que ando a ouvir: «Stabat Mater» de Marco Rosano


Cantado pelo «celestial» Andreas Scholl.
E o CD que ainda não saíu!

Peço desculpa pelo lugar-comum, mas só me vêm à cabeça anjos...
Acreditasse eu em querubins, aqueles que não estivessem a tocar as cornetas

(ou outros instrumentos, porque os anjos são muito versáteis!) estariam a cantar... com a voz do Andreas Scholl!
Num outro post autocritiquei-me por ter a mania do Andreas Scholl.
Pois tenho. E de outros. Sou assim... de manias!
Noutro dia falarei de outra voz que me apaixona: Angelo Manzotti.



















Imagens: http://yeti.gardena.net/ e http://www.geocities.com/magnificat_zespol/angels.jpg

08 outubro 2006

Para as mulheres com mais de sete lustros...

Mas sempre que quiseres chegar a uma Vénus já madura,
ainda que pouco tempo insistas, hás-de alcançar um justo prémio.
Arte de Amar, II,701-702

E correm para aí umas anedotas sobre o facto de os homens não se importarem com o nosso prazer!

Pois...
Alguns não...
Mas há 2000 anos, escrevia-se assim:

Elas sentem o prazer sem artifício;
para dar gozo, devem senti-lo igualmente a mulher e o homem.
Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros
(eis porque me apraz menos o amor com rapazes);
odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se
e que, na sua secura, só pensa na sua lã;
prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo;
um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo.
A mim, apraz-me ouvir gemidos que façam sentir o gozo dela,
e que me suplique que me demore, que me aguente;
quero ver os olhos rendidos da mulher, já fora de si,
e que ali fique desfalecida e largo tempo não queira que lhe toque.
Tais bens não os concedeu a natureza nos alvores da juventude;
é logo depois de sete lustros que costumam aparecer.
Quem tem pressa beba vinho novo; para mim, que faça escorrer um velho
vinho a ânfora arrecadada desde o tempo dos antigos cônsules.
Arte de Amar, II, 681-696

Belíssima tradução de Carlos Ascenso André, para a Livros Cotovia, em 2006.



(a capa original é rosa-choque e não este roxo senhor-dos-passos!!)

Os Infernos - «Metamorfoses» de Ovídio

Há um caminho em declive, ensombrado pelo teixo funesto,
que, por inominados silêncios, leva às moradas infernais.
Por aí exala o inerte Estígio seus vapores, e descem as últimas sombras

e os espectros dos que foram dados à sepultura.
A Palidez e o Frio dominam esses hediondos lugares em toda

a extensão, e os novos manes não sabem onde é o caminho que leva
à cidade Estígia, onde está o terrífico palácio do negro Plutão.
A espaçosa cidade tem mil amplas entradas e portas abertas
por todo lado.
E assim como o mar recebe os rios de toda a terra, assim recebe

aquele lugar todas as almas. E não é apertado para povo nenhum,
nem se ressente com a chegada da multidão.
As sombras, sem carne e sem ossos, erram exangues.
Apinham-se umas no foro, outras no palácio do Senhor dos Infernos.
Cumprem outras algumas tarefas, imagem
da vida passada. O merecido castigo reprime a outra parte.

Ovídio, Metamorfoses, Livro IV, 432-446. Tradução de Domingos Lucas para a Vega.
Segue o convite para o lançamento, já na próxima terça-feira.




«Plagius Maximus» (2)

Agora sim, o comunicado já está disponível no Caderno de Corda e n' A Sombra (bem como o pedido de desculpas do Provedor da RTP) para todos os que se quiserem associar.

07 outubro 2006

A filha do Moleiro


Hoje vou à festa de (re) inauguração do velho moinho do Reboliço, mesmo ali na rotunda, à entrada de Beja.
Gosto mesmo de moinhos, habituada que estou, desde criança, a mirá-los. Em alguns, cheguei mesmo a entrar e a vê-los trabalhar. E até conheci o senhor moleiro...
As histórias para crianças também ajudavam, pois a filha do moleiro era sempre muito inteligente e dava a volta aos príncipes e reis cá com uma pinta!
E o «meu» Oeste escolheu o moinho como imagem de marca... para o turismo.

Recuperado a rigor, vou adorar rever este moinho!
Obrigada aos Soares!

06 outubro 2006

Xantipa, a gata

A todos quanto perguntaram pela gata Xantipa, informo que a operação correu bem e que está a descansar...

Correcção - «Plagius Maximus»

A Sombra pediu-me para esclarecer que o comunicado a que se refere o link que coloquei não é o comunicado final a ser enviado para o Provedor do Telespectador no dia 8, o próximo Domingo. «Esse será publicado n'A Sombra e no Caderno de Corda às zero horas de Domingo, junto com as instruções sobre como agir em conjunto».
Aqui fica a correcção!

Sofistas: Testemunhos e Fragmentos

Andei anos atrás do Diels-Kranz (DK), Die Fragmente der Vorsokratiker. A AbeBooks mandava-me mensagens a dizer que o tinha encontrado, mas quando eu ia ver, um tipo qualquer americano já o tinha comprado umas horas antes... isto dos fusos horários!
Numa noite de insónia tive sorte e lá me chegaram os volumes, por 100 dólares, com aquele cheirinho de livro em segunda mão e o nome, em letra (quase) gótica, do seu dono anterior.
Mas o que aqui trago é uma versão portuguesa, já de 2005. Sabia há uns tempos que a Ana Alexandra Alves de Sousa e a Maria José Vaz Pinto tinham publicado a tradução, mas «ainda não tinha tido oportunidade» (eufemismo para «desleixo») de a comprar.
Cá estão eles, os fragmentos todos, com um bónus: o tratado anónimo Do Não Ente, De Melisso Xenophane Gorgia.

05 outubro 2006

«Plagius Maximus»

Solidarizo-me com a iniciativa que li aqui e aqui sobre o plágio de que o Caderno de Corda foi vítima por parte da... RTP!
Estes espaços são da autoria dos seus criadores, para o bem e para o mal, citando e sendo citados.
Convido todos a lerem o comunicado que se vai enviar para a RTP, no Domingo, dia 8 de Outubro e, em nome de todos os que não querem ver os seus textos plagiados, a associarem-se à «manifestação».

O que é legal (justo?) versus o que é natural (1)

Os debates sobre o tema acima indicado são inúmeros e infindáveis, mas como ainda é actual, aqui vai «mais uma achega para a fogueira».
Esta motivação surgiu de conversas com amigos, firmando cada vez mais o meu gosto pelos antigos: quanto mais leio os clássicos, mais próximos os percebo da nossa realidade. No outro dia, numa discussão sobre reformas e leis que o Governo quer fazer aprovar – e vai conseguir, pois tem a maioria absoluta – lembrei que as leis são feitas pelos homens e que «cá se fazem, cá se… mudam».
E se as leis foram passadas a escrito, conscientemente elaboradas por homens, tempos houve em que a sua base era apenas divina. No entanto, aqueles que pensavam discutiam quer a autoridade das leis não escritas, quer a das escritas – quando estas não respeitavam a natureza humana.
Vou cingir-me a esta última disputa, a que opunha a lei (nomos) à natureza (physis), dada a impossibilidade de compatibilizar a evidente contradição de duas fontes de valor: por um lado a ordem cósmica (a natureza das coisas), por outro a vontade dos homens (sendo as leis o fruto da acção humana).

O sofista Antifonte afirma que «a maior parte das coisas que são justas segundo a lei entram em conflito com a natureza». Hipócrates, num contexto médico, também opõe estes termos: «Pois a lei é o contrário de natureza no que diz respeito a estas coisas». Crítias, membro do governo dos «Trinta Tiranos» de Atenas, defende que os deuses não passavam de uma criação dos homens:

Também Crítias, um dos tiranos de Atenas, parece que era do grupo dos ateus, dizendo que os antigos legisladores formaram um deus como um inspector das acções dos homens, boas e más, para que ninguém injuriasse o seu próximo secretamente mas que o honrasse com receio da vingança dos deuses.

E, mais adiante, acrescenta-se que o tragediógrafo Eurípides teria defendido estas ideias, pondo na boca de uma personagem que um homem sábio «inventou para os mortais o temor [pelos deuses], de maneira que os maus tivessem medo até do que fizessem, dissessem ou pensassem em segredo».
Esta subversiva visão das divindades e das leis morais, por um lado, reduz os deuses a uma mera ficção, por outro, desacredita completamente as intenções dos legisladores.
No Górgias, de Platão, aparece-nos o orador Cálicles, uma figura relevante no debate entre nomos e physis, cujas teses só não ganham maior proeminência pelo simples facto de não ser possível asseverar a sua historicidade:

Dir-te-ei francamente o que é belo e justo segundo a natureza: aquele que quiser viver bem deverá deixar crescer à vontade as suas paixões, sem as reprimir, e, por maiores que elas sejam, deverá ser capaz de as satisfazer graças à sua coragem e inteligência, dando-lhes tudo aquilo que elas desejarem.
Claro que isto não é acessível à maioria, que censura estes homens por vergonha, para ocultar a sua própria fraqueza. Por isso ela declara, como há pouco observei, que a intemperança é vergonhosa, com o objectivo de escravizar os mais bem dotados pela natureza, e como não pode dar às suas paixões satisfação completa louva por cobardia a temperança e a justiça.
[...] A verdade que tu dizes perseguir, Sócrates, é, na realidade, a seguinte: a vida de delícias, a intemperança e a liberdade sem freio, quando favorecidas, são a virtude e a felicidade. O resto são palavras bonitas e convenções sociais contrárias à natureza, que não passam de tagarelice estúpida sem qualquer espécie de
valor
.(491e-492c).
(Tradução de Manuel de Oliveira Pulquério, Edições 70, Lisboa, 1992)

Esta tese tinha sido já apresentada no início da intervenção do orador no debate que opõe os três retóricos a Sócrates (482e-484c). São aí avançados dois pontos de vista importantes para qualquer abordagem da questão nomos/physis. O primeiro, a que me referirei adiante (se hoje não tiver tempo, amanhã continuo), seguindo uma referência de Aristóteles ao Górgias, é a de que nomos e physis eram dois conhecidos topoi nos debates sofísticos. O segunda é a que acabei de referir e que Cálicles reprova. No passo que reproduzo a seguir, com a sua enérgica condenação do nomos, Cálicles manifesta total solidariedade de pontos de vista com a defesa do ateísmo de Crítias:

Quanto às leis, estou convencido de que são feitas pelos fracos e pela grande massa, que agem exclusivamente no seu próprio interesse, fixando o que é digno de louvor e o que é digno de censura. Para assustarem os mais fortes, aqueles que têm possibilidade de se superiorizarem, e para não se deixarem ultrapassar por eles, dizem que toda a superioridade é vergonhosa e injusta e que a injustiça não é mais que querer estar acima dos outros. Como não têm valor, sentem-se felizes, creio eu, por colocar todos ao seu nível.
É por isso que a lei considera injusto e vergonhoso o desejo de ser superior à maioria, e é a isto que chamam injustiça. Mas a própria natureza, em minha opinião, demonstra que é justo que o melhor esteja acima do pior e o mais forte acima do mais fraco.
Id. Ibid., 483b-d

Caracterizar esta posição – tal como a de Crítias – como «imoralista», confinando-a ao domínio da ética, constitui apenas uma condenação. Parece-me mais interessante a tentativa de as encarar como um sintoma do clima dos debates sofísticos na Atenas do pós-Péricles, compreendendo claramente que a relevância destas posições é muito mais política do que ética (ou que a segunda decorre da primeira). No fundo, o que os dois oradores querem tornar claro é que se consideram acima das leis e dos valores que regem o comportamento dos outros homens, encarando como legítima qualquer tentativa de manifestarem a sua superioridade pela tomada do poder pela força. O facto é, de resto, confirmado pela história, no caso de Crítias.
Nota: as traduções não identificadas são da minha responsabilidade.

04 outubro 2006

paralisia/paralesia/paralepsia

Chamou-me um leitor a atenção para o facto da palavra «paralesia» estar mal escrita. Agradeço o alerta. A boa forma, a querida pelo autor do poema, depois de boa conversa, era «paralepsia». Falhou-me o «p». Fiz um copy/paste de um original que tinha no computador, posterior à referida conversa. Sei que o Pedro me perdoaria...
Recorrendo à memória, a dita resume-se a isto:
«- Vê lá se me corriges isso aí.»
«- Começo pelo título: «paralisia», não «paralesia.»
«- Paralisia vem de onde? Do grego?»
«- Sim, do grego parálysis. »
«- Não existe uma coisa parecida na retórica? Não há a prolepse e outras figuras do género? Aquela em se diz que não se vai dizer…»
«- Sim… Há a paralepse. Em grego, paráleipsis é, precisamente, a acção de omitir… E…?»
«- E eu quero omitir, quero que se leia o que escrevo e que se perceba aí o que não escrevo. Se há parálysis que deu «paralisia», havendo essa paráleipsis, devia ser «paralepsia» e não «paralepse»… Aliás, devia ser «paralesia», que esse «p» não está aí para nada.»
«- Deixa lá ficar o «p», pá! Não inventes de mais!»
E rimo-nos muito. Paralepsia fique.

Pedro Vieira 25 de Janeiro de 1967 - 4 de Outubro de 2005

Então senti-me verdadeiramente um exilado e senti que o meu
nervosismo me iria tornar permeável àquilo que - à falta de
melhor palavra - devo chamar poesia. Jean Genet

Uma verdade mais verdadeira
Verdade verdadinha
Ou uma verdade menos verdadeira
Mas ao menos uma verdade mesmo minha

§§§§§§§§§§§§§§§

Quando eu morrer
O transporte pouco me importa
Mas não batam em latas por favor...
Façam antes com minha pele morta
Belas batidas de tambor.
Que sonho ser dançado!!!
E finalmente dirão: Eis um homem
Realmente aproveitado.

__________________________________________
Fazer-se poema. Escrever-se a lápis e depois apagar-se.
Colocar num envelope as aparas resultantes do acto e
enviar isso, anonimamente, ao amor maior.

O último post...

No dia 3, ao fim do dia,
o Pedro deixou um post-it ao Bart:

«Vou até ao bairro
Procuro-te
Se não hoje, amanhã
Um abraço»


Foi encontrado na manhã de dia 4, sem vida, na praia de Algés.

Pedro Luís Baltazar Vieira, 25 de Janeiro de 1967 - 4 de Outubro de 2005
Foi a sepultar no Bombarral, onde viveu grande parte da sua vida.

03 outubro 2006

De uma carta com 2000 anos...

Há 6 anos que o meu mundo anda a dar voltas.
«Sou nova de mais para ter tantos amigos a desaparecerem», lamentava-me.
Neste 6 anos foram muitos, demasiados, aqueles que eu amava e partiram... pai, irmão, sogros, amigas, amigos...
Fui buscar ao computador uma carta a que tenho, infelizmente, tido necessidade de recorrer com demasiada frequência. Foi a primeira (Dezembro de 2000) de muitas que enviei com o texto de Séneca.
Como explica o contexto e alguns comentários, reproduzo-a. A Teresa não se vai importar, eu sei.

«Cheguei a casa e os meus olhos pousaram em Séneca, nas minhas (dele) eternas Cartas a Lucílio. Fui abrindo ao acaso e tudo fazia sentido. Ora me imaginava Séneca , ora me imaginava Lucílio. E é assim que te envio alguns bocadinhos dos pensamentos com os quais me deitei. Claro que estamos perante um mundo de homens, onde os sentimentos femininos nem sequer são tidos em consideração, muito menos a sua dor... no entanto, parecia que era para mim que Séneca estava a escrever. Incluo os meus pensamentos que foram atravessando a leitura...

Lamento profundamente o falecimento do teu amigo Flaco, no entanto a tua dor não deve ultrapassar os limites do razoável. Não ousaria exigir de ti que não sentisses o mínimo abalo perante o facto, embora isso fosse o ideal.

(aqui irritei-me, saltei parágrafos, mas ele continuou, imaginando uma pergunta por parte de Lucílio:)

«Como dizes? Então eu hei-de esquecer o meu amigo?!»

(voltei a saltar... não gostei da frase que vinha a seguir... e fui para a página seguinte:)

Age com equidade, caro Lucílio, e não interpretes mal os benefícios que a fortuna te concedeu: ela roubou-te um amigo, mas fora ela quem to tinha dado. Gozemos intensamente a companhia dos nossos amigos, até porque não podemos saber por quanto tempo o faremos. Pensemos também quantas vezes os deixámos para partir em longas viagens, quantas vezes estivemos sem os ver embora morando na mesma terra: compreendemos deste modo que, mesmo estando eles vivos, não aproveitámos a sua companhia a maior parte do tempo.

(tem razão...voltei a saltar uma página e li umas linhas soltas)

O que vou dizer-te agora é uma verdade mais do que rebatida, mas nem por andar em todas as bocas eu deixarei de a repetir: quando deliberadamente não pomos nós um termo à nossa dor, o tempo o fará por nós.

(pode ser verdade, mas a frieza dele está a irritar-me. Salto uma página. Não sei porque continuo.)

Sou eu quem te escrevo estas palavras, eu, que tão imoderadamente chorei o meu grande amigo Aneu Sereno, eu, que com grande vergonha minha me vejo forçado a incluir-me no número daqueles que se deixaram vencer pela dor!

(vá lá... está a mostrar-se mais «humano». Continuo a leitura)

Hoje, no entanto, condeno a minha atitude passada, e compreendo que a principal causa do meu excessivo pranto foi o nunca me ter passado pela ideia que ele pudesse morrer antes de mim. Ocorria-me apenas que ele era mais novo, muito mais novo do que eu – como se o destino se preocupasse em respeitar a ordem de idades! Mais uma razão para continuamente meditarmos na nossa condição de mortais, nossa e daqueles a quem amamos. O que eu deveria ter feiro era dizer: «Sereno é mais novo do que eu, mas isso que tem? Deverá morrer depois de mim, mas também pode morrer antes.» Não o fiz, e assim o súbito golpe da fortuna encontrou-me desprevenido! Neste momento medito em que tudo é mortal e que a mortalidade não obedece a qualquer lei; o que é possível, tanto é possível hoje como em outro dia qualquer. Pensemos, caro Lucílio, que em breve também nós iremos para onde foi agora, para tristeza nossa, esse nosso amigo; até pode suceder que tenham razão os sábios e haja um lugar onde todos iremos residir após a morte: se assim for, esse amigo que julgamos ter morrido, limitou-se a partir para lá à nossa frente!

Assim termina a 63ª carta de Séneca a Lucílio e é por isto que eu continuo a ler Séneca... passados cerca de 2000 anos...

Sobre uma pequena parelesia

Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta.
Experimenta por dentro a morte
A criança que canta
E a sua voz segue a arquitectura do movimento
Curva-se como o pulso que bate
E quando uns braços se estendem para si
Há uns braços dentro de si que se estendem sempre
Mesmo diante de uma árvore ferida.
Se eu soubesse de novo essa inocência
Com o que no corpo ainda resta do bailado
Só à volta das árvores rodaria
Quase sem palavras, apenas cantando
Mão morta, mão morta
Vai bater àquela porta.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

02 outubro 2006

E o negrume fosforescente?
E o cabelo na língua?
E a ferida que ri?

Sou um arquitecto de ruínas e
De qualquer forma sempre andei à procura
De um problema para a minha solução.

Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

01 outubro 2006

Sauromaquia

Negro e rosa na carne
Narciso
Pier Paolo Pasolini
Tinha no seu quarto
O rapaz com mar ao fundo sempre
Um sagrado coração no bolso interior
Do casaco e o temor
Da visão do alto lugar
Privilégio dos mortos familiares.
Acenderemos muitos fogos
Veneraremos todos os Lares
Hão-de gostar. Não te preocupes.

§§§§§§§§§§§§§§§§§§

A quem ao espelho a fio
Noites e noites passava
Narciso injustamente chamaram
Ao que só uma incoincidência esperava.

_________________________
Diz-me quem eu sou
Murmura-me ao Olvido
Parece que já nos desconhecemos
De qualquer outro lado


Inédito de Pedro Luís Baltazar Vieira (1967-2005)

«Conversão ao Islão»

Ultimamente tenho lido muitas coisas aqui me que me incomodam... ou melhor, que me desacomodam...
Esta leitura, para onde este blogue me reenviou, incomodou-me.
Incomodou-me que a autora achasse que a pele escura fosse sinal de sangue muçulmano a correr-lhe nas veias…
Incomodou-me a sua surpresa: «This made no sense whatsoever to me – could you be a prostitute and still go to heaven just because you were Catholic, like those flashy French actresses?»
??????
E incomodou-me por muitas outras razões.

Porém, por deficiência profissional, fui ainda sensível ao revisionismo subjacente à associação de nomes como Faro ou Lisboa aos árabes. Todos sabemos que existem arabismos em português, quase todos substantivos… isso não faz de nós falantes da língua árabe pelos pouco mais de mil vocábulos que herdámos (falar por falar…falamos Latim!).
Como se o nome de uma coisa determinasse a sua pertença. As razões porque um nome permanece imiscuem-se na sua história, à qual não se pode retirar um pedaço e dizer «este é que conta!»
Faro, antes dos muçulmanos, teve cá os romanos, por exemplo... e antes, os cartagineses... os gregos… os fenícios… Pela leitura do depoimento até parece que foram os árabes que fundaram a cidade!
E Lisboa! Reclama que o nome vem de al-Ushbuna. Ora, antes disso, Lisboa foi chamada Olissipo pelos romanos e Alis Ubbo, pelos Fenícios (cerca de 2000 anos antes da conquista pelos árabes). Provavelmente al-Ushbuna é a forma arabizada de Alis Ubbo, nome fenício, depois de os romanos a terem «entendido» como Olissipo (não é preciso saber fonética para perceber as parecenças…)
Devido à influência que os árabes tiveram na toponomástica durante o domínio da Península, acho normalíssimo que o nome que tenha sobrevivido seja aquele que a sua administração organizada lhes deu.
Só não percebo o que é que isso prova.
Prova tanto como achar que é morena por ter sangue árabe nas veias: «I was darker than most northern Portuguese, and this was a sign of Muslim blood running through my veins».
Os sinais, vemo-los onde queremos. Mas não podemos reescrever a História. Ou deveremos todos falar fenício… e adorar El, Baal, Moloc, Tanit…