18 novembro 2006

Diógenes e Alexandre (take 2 and last)

(continuação)

Diógenes: Mas diz-me cá, onde é que os Macedónios te sepultaram?
Alexandre: Ainda jazo em Babilónia, há trinta dias, mas Ptolomeu, o meu escudeiro pessoal, promete que, se conseguir o sossego das perturbações que o afligem, me levará para o Egipto e lá me enterrará, para que eu me torne um dos deuses egípcios.
Diógenes: Não queres, então, que eu me ria, ó Alexandre, ao ver que no Hades ainda és insensato e tens esperanças de te tornar Anúbis ou Osíris? Todavia, não tenhas essa esperança, ó diviníssimo! É que não é permitido que volte à superfície nenhum dos que uma vez atravessaram o pântano e chegaram ao lado de dentro da entrada. Éaco, de facto, não é negligente, nem Cérbero desprezível. Mas há uma coisa que eu gostaria de saber de ti, como te sentes quando pensas em quanta felicidade deixaste sobre a terra, ao chegar aqui: os guardas do teu corpo e escudeiros e os sátrapas e tanto ouro e os povos que se prostraram diante de ti e a Babilónia e Bactras e as grandes feras e a honra e a glória e o espectáculo que davas quando saías a cavalo com a cabeça rodeada de uma fira branca, vestido de um manto de púrpura. Não te fazem sofrer estas coisas, quando te vêm à memória? Porque choras, ó palerma? Não foi isto que o sábio Aristóteles te ensinou, a saber, não acreditar que são estáveis as coisas dependentes da sorte?
Alexandre: Um sábio, esse indivíduo, ele que foi o mais safado de todos os aduladores? Deixa que só eu conheça os ensinamentos de Aristóteles, quantas coisas me pedia e quais as que me encomendou, e como ele abusou do meu entusiasmo pela cultura, adulando-me elogiando-me ora a beleza, como se ela fosse uma parte do bem, ora as minhas acções e a minha riqueza. E, de facto, pela sua parte, ele considerava que a riqueza era igualmente um bem, por forma tal que se não envergonhava de também ele a aceitar. Um charlatão, ó Diógenes, e um comediante! Todavia, uma coisa aproveitei da sua filosofia, ao afligir-me, como se se tratasse dos maiores bens, com aquelas coisas que tu enumeravas há pouco.
Diógenes: Mas sabes o que hás-de fazer? Vou dar-te um remédio para a tua tristeza. Visto que o heléboro não cresce aqui, ao menos procura a água do Letes e bebe à boca cheia e volta a beber e faz isso muitas vezes. Assim, cessarás de aborrecer-te com os bens de Aristóteles.
Eis que vejo além Clito e Calístenes e muitos outros que se precipitam contra ti, para te fazerem em pedaços e se vingarem do que lhes fizeste. Por isso, vai pelo caminho oposto e bebe muitas vezes, como eu te disse.

O encontro entre Diógenes e Alexandre (em vida, não depois da morte como em Luciano) é mencionado neste artigo «Diógenes, Foucault e a prática da parrhesiae» (e foi daqui que tirei a imagem...)

Notas: Lete era uma fonte dos Infernos, a fonte do esquecimento (de onde vem a palavra portuguesa «letargia».
O heléboro é uma planta venenosa. Diz Houaiss que são «algumas cultivadas por suas flores e folhas vistosas, outras para produção de raticidas e, esp. outrora, para uso em veterinária e como catárticas».

5 comentários:

Manuel disse...

Não resisti a fazer um pequeno comentário ao diálogo de Luciano que nos selecionou.

Voltarei ao seu blog.

Xantipa disse...

Caro Manuel,
Fui ao seu blogue e já vi que temos muitos interesses em comum!
Também eu voltarei ao seu, de certeza!
:)

MGReis disse...

Ola Xantipa

Que rico take 2! Gostei muito.
O Diógenes é um gajo lixado, ou veneno ou esquecimento. Mas lá tem a sua razão.

Tem um bom fim-de-semana.

Beijinho
miguel

Rafeiro Perfumado disse...

Uma prosa tão elegante e o que me chama a atenção é a imagem, com a seguinte frase do velhote: "Ó filho, chega aqui o material para ver se sempre és macho ou não!". Desculpa...

Xantipa disse...

Caro Miguel,
Parece que o heléboro podia não matar, pois como era catártico também favorecia o esquecimento...
;)

Rafeiro Perfumado,
Diógenes era um cínico, palavra que significa «canino», «que é próprio do cão».
Portanto, está à vontade!
;)